quinta-feira, 22 de novembro de 2012

ESPIRITUALIDADE E “ESPIRITUALIDADES”

Tenho andado regularmente pelas Comunidades Terapêuticas (CTs) no Rio Grande do Sul, olhando o modo como se estruturam, o programa que desenvolvem, os recursos humanos que dispõe e os resultados obtidos.

Tenho aproveitado também para conversar com as pessoas, sobretudo sobre o programa de recuperação, sua força transformadora e sua capacidade de reabilitação da vida e tenho escutado opiniões muito variadas, entre as quais destaco as seguintes:

· Alguns dizem que a maior dificuldade para a recuperação é o fato que as drogas mudaram, tornaram-se mais potentes, sintéticas e com efeitos cada vez mais imediatos e devastadores. 

· Outros dizem que a grande dificuldade reside na mudança do perfil dos usuários, rompendo com todas as barreiras e fragilizando ainda mais o que já era frágil, pois a droga entra na vida quando a vida está fragilizada.

· Algumas pessoas chegam a afirmar que uma parte do mundo das CTs se transformou num certo mercado com interesses econômicos, seja da parte dos operadores do sistema, seja de pessoas, grupos e organizações sociais que vêem neste segmento a possibilidade de lucro.

· Existem também alguns que dizem que a razão central, a dificuldade que está na raiz de tudo isso é o afastamento de Deus. As pessoas não conseguem mais viver a partir de seu interior, se perdendo nas exterioridades que mais fraturam a vida humana do que lhes dão consistência.

É sobre esta última realidade que pretendo tratar aqui. Somos, acima de tudo, seres espirituais e isso nos distingue de todo o resto do universo. Uma das consequências mais palpável desta crise é a desarmonia em que vivem tantas pessoas, sem um equilíbrio razoável entre as dimensões espiritual, intelectual, instintiva (animal), sensitiva e operativa.

Num destes dicionários que se encontra no mundo virtual, está dito o seguinte sobre espiritualidade:

“A espiritualidade é uma dimensão da pessoa humana que traduz, segundo diversas religiões, o modo de viver característico de um crente que busca alcançar a plenitude da sua relação com o transcendental. Cada uma destas religiões comporta uma dimensão específica a esta descrição geral, mas, em todos os casos, se pode dizer que a espiritualidade traduz uma dimensão do homem, enquanto é visto como ser naturalmente religioso, que constitui, de modo temático ou implícito, a sua mais profunda essência e aspiração”. (Wikipédia) 

Nesta primeira definição de espiritualidade, o autor entende que cada ser humano e todos os seres humanos buscam uma unidade interior...

· através de contatos com o sobrenatural

· mediados pelas práticas religiosas

Lá pelos anos 1.530, houve uma outra formulação sobre o que é espiritualidade, ou melhor, o que são os exercícios espirituais que conduzem a uma espiritualidade, e dizia assim:

“Por Exercícios Espirituais (espiritualidade) se entende qualquer modo de examinar a consciência, de meditar, de contemplar, de orar vocal e mentalmente e outras operações espirituais. Pois, assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais, da mesma forma se dá o nome de exercícios espirituais:a todo e qualquer modo de preparar e dispor a alma, para tirar de si todas as afeições desordenadas e, afastando-as, procurar e encontrar a vontade divina.” (Inácio de Loyola) 

Esta segunda definição acrescenta tres finalidades para o exercício da espiritualidade, a saber:

· Preparar e dispor a alma

· Tirar de si todas as afeições desordenadas

· Procurar e encontrar a vontade divina

A nossa opção será pela segunda formulação sobre o que é espiritualidade pois, se a primeira coloca a pessoa voltada para fora de si, buscando no transcendente as razões de sua existência, a segunda faz com que a pessoa se volte para dentro de sí e, “arrumando a casa”, crie as condições necessárias e suficientes para a ação do transcentente. Se a primeira definição da a impressão de um certo automatismo e ação milagrosa, o segundo conceito dá claramente a idéia de processo, de caminhada.

É na espiritualidade que o ser humano encontra o sentido da vida. Cada um de nós traz em si uma marca profunda, que o acompanha durante toda a sua vida, assim como o sinal do umbigo que nos faz lembrar sempre que nascemos de nossa mãe. Foi ela que nos gerou, nos nutriu, nos deu a vida. Assim também temos em nós a marca do nosso Criador e ansiamos pelo reencontro com ele. Este anseio se manifesta através da busca de uma religiosidade, da oração e da mística que expressa fome e sede de Deus. Esta busca de algo que seja superior a nós e que vá além dos limites da nossa vida. E ela se manifesta em todo o ser humano à medida que este alcança um certo grau de maturidade. (Cleoni Follmann) 

2) MODELOS DE ESPIRITUALIDADE

Nossa intenção agora é procurar identificar os modelos de espiritualidade que são praticados dentro das CTs, pois a quase totalidade delas aplica a espiritualidade como ferramenta de recuperação. A espiritualidade é reconhecida universalmente pela medicina e outras ciências como um componente terapêutico facilitador da recuperação. Tendo em vista que nas origens dos centros de recuperação em dependência química está o consagrado tripé (trabalho - disciplina - oração), é oportuno que se clareie alguns aspectos neste tema.

No tripé referido acima, colocamos a palavra oração e não espiritualidade. E a razão é simples. A oração pessoal e também a comunitária é o resultado de uma determinada prática religiosa. Há um texto do escritor Frei Beto, que se encontra facilmente na internet e que leva o título “Espiritualidade e Religião”, onde o autor nos ajuda a compreender que existe uma diferença entre espiritualidade e religiosidade. A primeira é universal e a segunda é particular. A espiritualidade perpassa todos os setores da vida humana (o trabalho, a disciplina, os sentimentos, as atitudes, a própria vida instintiva) e a religiosidade são os recursos que uma determinada crença religiosa nos oferece como percurso para encontrar uma vida interior, uma vida espiritual. Religiosidade é também o vínculo mantido com alguma instituição religiosa e que pode ajudar a desenvolver uma espiritualidade. Religiosidade é meio, espiritualidade é fim. Religião é o instrumental da orquestra; espiritualidade é a musicalidade e a harmonia que cada um consegue através dos exercícios espirituais (talvez aqui se entenda a grande migração religiosa que se verifica nos tempos atuais. É a busca que cada um faz para encontrar “a sua orquestra”).

Portanto, o que é oferecido na comunidade terapêutica, não é propriamente espiritualidade, mas a ferramenta da oração, comunitária e individual, para que cada um, com suas raízes religiosas, possa desenvolver uma determinada espiritualidade que o ajudará na superação e controle da doença. Assim que, a espiritualidade é aquela experiência de caráter estritamente individual e único, e que perpassa todas as dimensões do indivíduo, dando-lhe consistência suficiente para manter-se íntegro, sobretudo nas horas de turbulência e provação.

Com estes esclarecimentos, talvez se possa agora identificar os modelos de espiritualidade que se estão verificando nas CTs, pois elas, segundo suas convicções, oferecem preferencialmente as ferramentas de religiosidade que acreditam serem as mais eficazes. E para este discurso, me servirei de um texto bíblico bastante conhecido. Afinal, num país onde 90% da população afirma professar a fé cristã, nada melhor que utilizar o livro que inspira as várias correntes religiosas presentes no tecido da sociedade brasileira para falar de espiritualidade. Certamente as correntes religiosas orientais teriam outros argumentos a oferecer, mas são raríssimos os casos de muçulmanos, budistas ou seguidores de outros credos que se apresentam como candidatos a residentes nas casas de recuperação em dependência química, ao menos aqui no sul do país.

“Vós, portanto, ouvi o significado da parábola do semeador: (Mt. 13, 18-23)

A) Todo aquele que ouve a Palavra do Reino e não a entende, vem o maligno e rouba o que foi semeado em seu coração; esse é o grão que foi semeado à beira do caminho 

B) O grão que foi semeado nas pedras é quem ouve a Palavra e logo a recebe com alegria; mas não tem raiz em si mesmo, é de momento: quando chega a tribulação ou a perseguição por causa da Palavra, ele desiste logo

C) O grão que foi semeado no meio dos espinhos é quem ouve a Palavra, mas as preocupações do mundo e a ilusão da riqueza sufocam a Palavra, e ele fica sem fruto

D) O grão que foi semeado em terra boa é quem ouve a Palavra e a entende; este produz fruto: um cem, outro sessenta e outro trinta.” 

A) UMA ESPIRITUALIDADE COM ENFOQUE FUNDAMENTALISTA

Há uma corrente de espiritualidade que podemos chamar de “fundamentalista”. Não é um vocábulo necessariamente negativo, mas que pode induzir a uma visão negativa da vida. Esta corrente está difundida entre as comunidades terapêuticas, e vem geralmente associada aos movimentos espiritualistas neo-pentecostais. È uma espiritualidade que se serve basicamente dos livros bíblicos do Antigo Testamento, lá onde a condenação é um argumento forte, pois a teologia que inspirou a revelação cristã em seus primórdios está fundamentada na ideia do homem decaído pelo pecado e condenado a viver fora do paraíso. É uma teologia muito marcada pela ideia de castigo, de penitência, de longos jejuns e práticas de mortificação. Não são conceitos errados, mas são conceitos que não conduzem para a alegria, para uma visão positiva da vida. Sem querer fazer qualquer tipo de juízo, me arrisco a dizer que este modelo de espiritualidade conduz mais para o medo que para a confiança, mais para uma atitude depressiva que otimista, mais para o isolamento que para a convivência fraterna. É uma espiritualidade que mais trava a caminhada do que acelera o passo e que pode dar a impressão de que o ser humano é objeto da justiça divina mais do que sujeito e construtor da vida que lhe foi oferecida como dom.

B) UMA ESPIRITUALIDADE COM ENFOQUE CARISMÁTICO

Muitas comunidades terapêuticas vivem ao som de músicas religiosas durante grande parte do dia, através de potentes equipamentos de ampliação do som. Entendem que esta é uma ferramenta correta para ocupar o espírito com temas bons e úteis e que serve para incutir novos valores que, por sua vez, irão gerar novas atitudes. Outras comunidades se servem dos momentos chamados “louvor”, onde se canta e se expressa os sentimentos num estilo de “catarse”, de liberação da carga emocional contida “nos porões da humanidade”. Alguns visitantes, quando veem aqueles homens, marcados pelo sofrimento e pela dor, cantarem com os pulmões em festa, chegam a se emocionar por ser quase inacreditável que, após ter passado pelo vale da morte, alguém possa expressar tamanha euforia. Nos encontros festivos dos assim chamados “graduados” (os que passaram com sucesso pelo programa de recuperação nas CTs), numa das noites é feito um momento chamado de espiritualidade, onde o canto e o som instrumental reverbera de tal forma, associado à expressão corporal, que mais parece uma casa de show noturna, com músicas gospel. E depois disso, todos saem felizes por terem vivenciado um momento emocional forte e que “mexeu” com os sentimentos.

De novo, sem querer emitir um juízo de valor, lembro que os estudos mostram que a dimensão sentimental, emocional, é a mais periférica, a mais superficial e a que menos produz efeitos de transformação a longo prazo, pois os sentimentos são efêmeros e, quando o fogo diminui de intensidade, a sua capacidade de temperar o aço fica comprometida.

C) UMA ESPIRITUALIDADE COM ENFOQUE INTIMISTA

Uma das dificuldades mais comuns na vida espiritual de todos os povos e em todos os tempos, é a capacidade maior ou menor de expressar a vida interior em palavras e ações. Há uma tendência natural de esconder a hierarquia dos princípios de fé e de moral e de viver isso de uma forma apenas privada como se houvesse uma separação entre fé e vida. As pessoas vivem de tal forma mergulhadas na turbilhão do dia a dia que nem sequer encontram tempo e lugar apropriados para expressar suas convicções. As pessoas viver de tal forma mergulhadas dentro da lógica do mercado e do bem estar, que nem sempre conseguem fugir dos mecanismos truculentos do “levar vantagem em tudo”, abrindo mão das próprias verdades e vivendo certa duplicidade entre valores e atitudes. As pessoas são manipuladas com tamanha intensidade, que muitas vezes nem percebem que a coerência é uma necessidade inata a cada um e, viver de forma incoerente é estar sujeito a riscos de fraturas existenciais perigosas. Em certos lugares, por vergonha ou perseguição, as pessoas não deixam claro a qual universo de valores estão vinculadas. A privatização da espiritualidade induz ao “cada um por si e Deus por todos”, negando assim um dos recursos mais terapêuticos, que é a partilha e a ajuda recíproca, no amadurecimento do discernimento para a vida.

D) UMA ESPIRITUALIDADE COM ENFOQUE VIVENCIAL

Ouvir, entender e produzir fruto. O autor desta parábola está nos ensinando que espiritualidade é um processo vivido no coração e na mente e traduzido em frutos. Digo no coração porque o ato de ouvir é uma atitude mais afetiva do que propriamente mecânica, fisiológica ou mental. Sabem disso aqueles que já passaram pela experiência do “lacrar o melão”. A atitude de não ouvir pode depender mais do coração do que da mente. Costumo dizer que uma mente clara e um coração pacificado só produz boas atitudes. Fazemos estripulias quando a nossa mente está confusa ou quando nosso coração está intranquilo, ou os dois juntos.

A escolha que fizemos pela segunda definição do que seja espiritualidade, nos leva ainda mais adiante. Esta definição está dizendo que uma vida intensa de oração ajuda a desobstruir os canais de comunicação com o Ser Superior no qual se acredita. Se deposita a esperança e que se deseja seguir. As práticas de religiosidade propostas servem como alavancas, projetando a pessoa para um patamar superior de vida, lá onde a alma humana estará menos intoxicada e mais apta para a comunicação. Preparar e dispor a alma significa assumir uma atitude de abertura para a novidade que pode mudar o rumo da vida. É uma atitude de gratuidade e expectativa.

A segunda atitude sugerida pela definição é tirar de si todas as afeições desordenadas. Para uma caminhada espiritual, é condição necessária que a pessoa consiga livrar-se dos sentimentos ruins que carrega. Carregamos na bagagem rancores, mágoas, temores, ressentimentos e tantos outros sentimentos que não ajudam em nada para um processo de crescimento espiritual. É preciso arrancar o inço que cresceu e preparar a terra para a semeadura.

A terceira atitude sugerida pela definição é procurar e encontrar a vontade divina. Somente uma pessoa que cultive a gratuidade e os bons sentimentos será capaz de caminhar na direção de conformar sua vontade com a vontade do Ser Superior no qual acredita. Este é o terceiro grau de profundidade de uma vida espiritual bem orientada. O primeiro grau é a espiritualidade do automatismo (fazer porque está no cronograma); o segundo grau é criar gosto pela vida interior e começar a buscar (o desejo do desejo); o terceiro grau da perfeição é submeter a própria vontade à vontade do Criador (terceiro passo de AA).

Por ser um processo sempre permeado pelas imperfeições humanas, é bem provável que no meio do caminho teremos a presença de algum sinal de fundamentalismo, de carismatismo ou de intimismo. São os “ismos” que nos acompanham. Gostaríamos que a espiritualidade fosse como uma máquina impilhadeira de virtudes, mas ela se assemelha mais a uma máquina de aplainar os caminhos. Após cada tempestade ou mau tempo, precisamos indireitar as veredas mais uma vez.

“História de uma alma” - Terezinha de Lisieux

“Nessa noite de luz, começou o terceiro período da minha vida, o mais bonito de todos, o mais cheio das graças do Céu… Num instante, a obra que eu não pude cumprir em dez anos, Jesus a fez contentando-se com a boa vontade que nunca me faltara. Como os apóstolos, podia dizer-Lhe: “Senhor, pesquei a noite toda sem nada pegar”. Ainda mais misericordioso comigo do que com os discípulos, Jesus pegou Ele mesmo a rede, lançou-a e retirou-a cheia de peixes… Fez de mim um pescador de alma, senti um desejo imenso de trabalhar pela conversão dos pecadores, desejo que não sentira tanto antes… Em suma, senti a caridade entrar em meu coração, a necessidade de me esquecer para agradar e, desde então, fiquei feliz!…” 

3) A TÍTULO DE CONCLUSÃO

Após termos realizado este percurso, sem querer que todas as idéias colocadas em questão necessitem ser subscritas por todos e cada um dos que tiverem contato com este texto, desejo apenas que a nossa convicção acerca da centralidade da espiritualidade no processo de recuperação e libertação de todas as drogas tenha-se fortalecido. Quanto mais nos acuam com a técnica, com mais firmeza temos que propor a mística. A espiritualidade, assim como nós cristãos a concebemos, necessita de tres âncoras:

· Um fundamento: “Pois onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração" (Mt 6,21).

Um processo: "Se vivemos pelo Espírito, por Ele pautemos também nossa conduta" (Gl 5,25).

· Um resultado: “E sereis repletos da plenitude de Deus” (Ef. 3, 19b)

Gostaria de deixar registrado também minha profissão de fé na fecundidade das comunidades terapêuticas. Percorrendo os milhares de quilômetros que percorri nestes últimos dois anos, me convenci que o modelo residencial oferecido pelas comunidades terapêuticas é o que tem dado os melhores resultados no resgate de vidas humanas. Também estou convencido que a comunidade terapêutica tem como tarefas principais:

- oferecer as ferramentas necessárias e suficientes para que cada residente possa viver e experimentar uma relação verdadeira de amor fraterno entre os pares

· favorecer um ambiente saudável e carregado de esperança para que o residente realize o “despertar espiritual” sem o qual não haverá de fato mudança de vida

Um grande amigo uma vez me disse: “Parece que Deus está se servindo da drogadição para nos provar que a fé não é uma teoria”. Esta é também a minha convicção.

Porto Alegre, 1º de agosto de 2012

Pe. Vitor Hugo Gerhard

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